22 de abril de 2015

Dicas da Suíça (IX) - Um passeio pela sede da ONU em Genebra.

Não é todo dia que a gente mata aquela vontade de criança.
Não sei vocês, mas quando criança eu tinha umas respostas bem pouco usuais àquela clássica questão “o que você quer ser quando crescer?” Nunca respondi médico, engenheiro, muito menos advogado (eita destino! Kkk).

Dizem que as minhas primeiras respostas foram lixeiro e bombeiro, certamente porque achava o maior barato andar pendurado no caminhão. Incrível como criança não tem noção das dificuldades e riscos envolvidos nas coisas.

Depois veio a fase veterinário. Mais sem noção que isto impossível! Adoro animais, mas não suporto vê-los sofrer. Jamais daria certo.

Acho que a resposta mais sensata dentro daquilo que gosto, mas bem fora do binômio possibilidade/realidade veio lá pelos 10-12 anos. Resolvi que queria ser cônsul ou embaixador! Humilde assim.

Toda vez que paro numa imigração e vejo aquela fila especial para passaportes diplomáticos dou risada comigo mesmo e lembro desta ideia de criança.
Quem sabe a próxima geração siga por ai?!?!
Por mais que pareça que tudo isto esteja ligado simplesmente à possibilidade de morar fora e viajar muito, na verdade a questão vai além. Já contei aqui a minha paixão por mapas, bandeiras, história e política internacional e acho que estes foram os elementos que incutiram esta ideia na minha cabeça. Mas o destino me levou para outros lados. Só voltei a ter contato com o assunto já na faculdade, mas infelizmente não tive um professor de Direito Internacional lá muito simpático, o que literalmente enterrou o meu interesse pela matéria. Uma pena!

Diante deste sonho de criança, não poderia deixar de visitar a sede da ONU em Genebra, mais conhecida como Palais des Nations.

Palais des Nations.

As visitas são possíveis apenas num tour guiado, o que é ótimo pois o guia, funcionário da ONU, fornece muitas informações tanto sobre o prédio quanto funcionamento da organização. Fora que o rapaz que nos atendeu colocou-se várias vezes à disposição para responder às questões do grupo. Nota 10.
Visitas, só guiadas.
Pena que na hora fiquei com uma cara de ué, porque foi um belo souvenir.
A entrada para o complexo é pela Ave de la Paix 14 (Portão Pregny), onde após uma fila razoável e um sistema de segurança / revista como aqueles de aeroporto, você é cadastrado e encaminhado para uma área onde é feita a escolha do horário do tour – eles separam as pessoas em grupos de 20/25 por guia.

Após agendar o horário, que normalmente é para dali uns 20-30 minutos, você é encaminhado ao edifício central onde ficará esperando o seu horário. Embora este tempo possa parecer muito, ele passa voando por um simples motivo: você fica esperando diante de uma loja de souvenires interessantíssima.
Talvez a melhor loja de souvenires que já vi. Pelo menos em termos de conteúdo!
Pins, pins e mais pins! Quero todos!!!
Muito legal este mapa para raspar os destinos já visitados.
Lá na empresa estas bandeirinhas fariam o maior sucesso representando as subsidiárias!!!
Ali, além das óbvias camisetas, pins e bonés com tema da ONU; muitos livros, mapas e bandeiras. Como dentre outras coisas, coleciono pins das bandeiras dos países visitados, aproveitei para comprar o de Andorra que não pude comprar in loco. A vontade era comprar todos, mas a tradição manda comprar no país visitado! Kkkk

Se não der tempo de ver a loja, relaxa, na volta do tour você terá mais tempo porque ele termina ali.

O tour começa com uma breve explicação sobre o tour que demora 1 hora. É permitido fotografar praticamente tudo (eles avisam quando não for proibido). Só não pode filmar, nada!

Embora a sede mais conhecida das Nações Unidas esteja em New York, foi neste edifício em Genebra que em 1919 nasceu a Liga das Nações, organismo criado no final de Primeira Guerra Mundial, e que serviu de embrião para a ONU, anos depois, mais precisamente em 24 de outubro de 1945.
Em alguns detalhes da decoração ainda as iniciais da Liga das Nações.
Mas por que escolher a Suíça como sede para a Liga das Nações? A mais evidente é sem dúvida a famosa neutralidade suíça. Como apontado pelo funcionário responsável pelo tour, dificilmente alguma nação iria durante uma guerra invadir um país neutro como a Suíça e “tomar posse” da ONU, então Liga das Nações ou praticar qualquer outro ato danoso.

Presidida pelo sul-coreano Ban Ki-moon, atualmente a ONU tem 193 Estados-membros mais a Santa Sé (Vaticano) e a Palestina na condição de observadora.

Mas para que serve a ONU mesmo? Os seus objetivos oficialmente são a cooperação entre os povos nas áreas do direito internacional, segurança internacional, desenvolvimento econômico, progresso social, direitos humanos e a busca pela paz mundial. Já deu para notar que nem no papel isto parece fácil!
Tá mais fácil dá nó em canhão!
Uma das primeiras curiosidades que é contada no tour é a respeito do seu logotipo e da sua bandeira azul.
No centro do mundo... O Polo Norte!
Alguns de nós pode ter passado a vida inteira olhando para este símbolo sem notar que ele traz algo de diferente... Ao representar o globo terrestre ou o mapa mundo, a ONU preferiu, ao invés de utilizar a representação tradicional que mostra a Europa no centro do mundo, um mapa com o polo norte como centro do mundo. Nada mais correto, já que pelos princípios da ONU, nenhum país deve ser mais importante que o outro.

Seguindo esta mesma ideia, lá nos contaram que países membros não têm lugares fixos nas reuniões. Em atendimento à igualdade, os lugares são sorteados de tempos em tempos. Todavia eles tomam o cuidado de não colocar rivais lado a lado.



E por falar nisso, as salas têm sempre mais de uma entrada e saída para que eles entrem e saiam por portas diferentes evitando-se a confrontação.

Com tantos países discutindo assuntos sensíveis e com pontos de vista tão diferentes, fiquei imaginando como são as discussões. Que idioma é falado? Embora a maioria pense que seja o inglês ou talvez até o francês (língua tradicional na diplomacia), na ONU, praticamente cada um fala a sua.

Oficialmente são falados 6 idiomas: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo. E estas são traduzidas simultaneamente entre si durante as reuniões e para documentos on-line – os demais são apenas em inglês e francês. Fiquei com a clara impressão que os tradutores são os funcionários mais importantes! Kkkkk

Os pontos altos do tour são as visitas às salas. Só fique ciente que eventualmente uma ou outra sala pode não estar disponível à visitação por conta de alguma reunião importante (afinal aquele é um local de trabalho!).
Como são muitas salas, monitores mostram o que está acontecendo e programado em cada uma delas.
A primeira sala visitada foi a do Conselho de Segurança. Como o próprio nome diz, a função do Conselho de Segurança é manter a paz mediante decisões vinculativas, obrigatórias aos seus destinatários. São as chamadas Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Aqui é que as coisas fervem!
Ali são debatidos temas que podem ir de conflitos já estabelecidos, até crises nucleares (vide o recente caso do programa nuclear do Irã).

Ele é composto por 5 membros permanentes (EUA, Inglaterra, França, China e Rússia) e mais 10 não-permanentes eleitos na Assembleia Geral. O Brasil já participou 10 vezes.

Uma das deliberações que o Conselho de Segurança pode tomar é o envio dos chamados "capacetes azuis", as forças de paz da ONU, para regiões em que existam conflitos armados ou nas quais seja necessária a manutenção da paz. Estas tropas são na verdade cedidas por estados-membros – Vide o Brasil no Haiti.
Às vezes estas intervenções custam a vida de seus diplomatas, como no caso do brasileiro  Sérgio Vieira de Mello, morto num atentado em Bagdá no ano de 2013.
Este é o memorial às vítimas e os fragmentos da bandeira expostos em Genebra.
Caso um dos membros permanentes do conselho não concorde com a decisão dos demais, ele tem o poder de veto, remetendo as questões para novas rodadas de discussão. Em contrapartida, os membros permanentes não podem candidatar-se ao cargo de Secretário Geral.

Algo que foi perguntado e esclarecido durante o nosso tour foi a respeito do financiamento. Quem paga a manutenção da ONU? Afinal estar presente no mundo inteiro, e muitas vezes atuando em conflitos armados custa pequenas fortunas – nos passaram um orçamento anual que varia entre US$4/5 bilhões.

O financiamento é feito por rateio, numa conta que considera o potencial econômico, a dívida externa e a renda per capita. Para que não haja uma dependência muito grande de nenhum país, ninguém pode contribuir com mais de 22% do orçamento.

Durante o nosso tour, ao saber que éramos brasileiros, o guia informou que o Brasil contribui com pouco menos que 2% do orçamento anual. Somos um dos 15 maiores contribuintes!

Uma sala interessantíssima, e talvez a mais bela do complexo, mas que infelizmente não pudemos ver pois um encontro estava acontecendo lá foi a do Conselho dos Direitos Humanos, chamada de The Human Rights and Alliance of Civilizations Room.

Reparem no teto!!! Créditos: Wikipedia.
Mas o nosso guia permitiu que olhássemos pela porta de vidro. Disparada é a sala mais interessante na minha opinião, não só pela beleza do seu teto, é de autoria o artista Miquel Barcelò; mas principalmente pela importância daquilo que se discute lá.

Uma das maiores preocupações da ONU após as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente o holocausto, foi o combate às violações aos Direitos Humanos.

Outra sala interessante é a reservada para a Corte Internacional de Justiça. Aqui todos os países membros são convocados para reuniões e debates relativos aos conflitos internacionais, salvo os de cunho políticos.
Créditos: Wikipedia.
Ela funciona como um órgão auxiliar da corte existente em Haia.

A última sala visitada foi a maior de todas, a Assembly Hall. Com capacidade para 2.000 pessoas é utilizada para reuniões da Assembleia Geral.
Assembly Hall.
Posso pedir a palavra???
Com a exceção de assuntos relativos à paz e segurança nacional que são de responsabilidade do Conselho de Segurança, todos os demais assuntos de relevância são discutidos na Assembleia Geral. Ali, cada membro tem um voto, e as questões são aprovadas por maioria de votos.

Em algumas épocas do ano também é possível visitar os jardins.
O famoso globo nos jardins. Tem um igual no Vaticano.
Caso você não tenha parado diante da fachada principal do edifício na ida, aproveite a volta do tour para ver de perto uma escultura que virou símbolo de uma triste realidade.
Broken Chair.
A “Broken Chair”, uma cadeira gigante com um dos pés quebrado, serve para lembrar a todos da triste realidade a respeito das minas terrestres, um flagelo de guerra que infelizmente ainda persiste em muitas zonas de conflito, mesmo após o término das lutas armadas.

Se você curte história, política mundial, direito, e outras tantas coisas, eis um passeio diferente e essencial em Genebra!

Gostou? Então programe-se: a entrada é feita pela Ave de la Paix 14 (Portão Pregny). Para chegar lá, utilizar o tram 15 e parar no ponto Nations. O horário é de setembro a março, de segunda à sexta das 10h00 às 12h00 e das 14h00 às 16h00; de abril a junho no mesmo horário, mas diariamente, e julho e agosto diariamente das 10h30 às 16h00. O tour leva 1 hora. A entrada custa CHF 12. É essencial ter em mãos o passaporte para que sirva como documento de identidade.
O complexo é enorme.
No próximo post da nossa #SwissExperience, vamos visitar uma fábrica de queijos e de chocolates. Hummm.

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2 comentários :

  1. Olá Diogo em junho vou fazer um tour pela Suíça e Áustria e estou pegando várias dicas com seu excelente blog. A respeito da visita na ONU em Genebra foi necessária alguma reserva anterior ou bastou chegar na hora para fazer a visita. Procurei no link do site da ONU e pelo que vi lá só reservavam para grupos maiores.

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    1. Oi Adriano, não fizemos reserva não.
      Fomos direto para o portão. Até entramos levou uns 30 minutos, pois tinha bastante gente.
      Abraço.

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