Você pode até ir para o Roma e não ver o Papa, mas ir para lá e não ver o Vaticano é um pecado!
Pois é, nem sempre se dá a sorte de estar lá e ver o velhinho acenando na sacada. Mas o Vaticano e suas obras monumentais sempre estarão lá para você admirar.
Seja você religioso ou não, e pouco importando a fé professada, o Vaticano é uma atração imperdível em Roma, ou melhor, um país.
Sim, este é um dos três casos de um país dentro do outro, e o único de um país dentro de uma cidade. Uma aparente incongruência. Uma subversão das “regras da geografia”.
Muita gente se esquece que o Vaticano é um país. E o mais maluco é que o seu nome completo e oficial é Estado da Cidade do Vaticano.
É preciso ainda separar o que é a “Santa Sé” e o “Estado da Cidade do Vaticano”. Embora muitas vezes usados como sinónimos, não o são.
O Vaticano é o território físico, o país com as suas fronteiras, edifícios e infraestruturas.
A Santa Sé, por outro lado, é a entidade governamental e espiritual da Igreja Católica, uma instituição que existe há milénios, muito antes da criação do Estado do Vaticano em 1929, através do Tratado de Latrão.
O Vaticano não faz parte da Zona do Euro – e nem da União Europeia. Isso porque uma das exigências pra se juntar ao bloco é ser uma democracia. E o Vaticano não é.
Aqui, o papa tem poder absoluto. Ou seja, o Vaticano pode ser considerado uma das últimas monarquias absolutistas do mundo – se bem que tem uns governantes por ai que agem como reis…
Mas por outro lado é a única monarquia em que o monarca não herda o cargo e nem pega ele à força, mas é eleito via Conclave sediado na Capela Sistina.
Porém o Papa não cuida da burocracia do Vaticano, isso é função da Secretaria de Estado, comandada justamente por um cardeal específico. Há quem diga que essa estrutura do Vaticano lembra a de países que tem um presidente e um primeiro-ministro – sendo o papa o presidente, ou o chefe de estado, e o cardeal-secretário o primeiro-ministro, ou o chefe de governo.
Ele tem tudo o que um país precisa ter, exceto uma seleção de futebol e uma marca de cerveja.
No mais, ele tem boa parte das coisas que se espera de um país comum: bandeira, correio, banco, forças de segurança. Mesmo sendo assim tão diminuto, inclusive em termos de população: aproximadamente 800 pessoas.
E quando falo pequeno é pequeno mesmo. Estamos falando do menor país do mundo em extensão, com 0,49 km² (194.º). Para a galera de São Paulo, ou que conhece, é um terço da área do parque do Ibirapuera.
O mais incrível é que, o que se faz e diz neste pequeno país influencia nada menos do que 1 bilhão de pessoas que vivem neste planeta, que é a quantidade estimada de católicos praticantes.
Talvez você esteja se perguntando porque sendo assim tão pequeno o Vaticano simplesmente não faz parte da Itália e pronto? Afinal seria bem mais simples, não?
E, se ele é um país, porque não tem controles de fronteiras nem imigração?
Bom, o Vaticano nem sempre foi tão pequeno como conhecemos hoje.
Por muito tempo, coisa de mais de mil anos, o Papa controlou muitos outros territórios em volta dessa região – a cidade de Roma inclusive.
A história do Vaticano se confunde com a história do cristianismo, e em grande medida mostra o como e quanto fé e poder se misturaram ao longo da história.
Antes de ser o centro do catolicismo, a área onde hoje está o Vaticano era uma região pantanosa e pouco apreciada, localizada fora dos muros da Roma Antiga.
O seu nome deriva de Vaticinia, que se refere às profecias ou oráculos que ali eram proferidos. Interessante ver que o nome do símbolo maior da igreja católica está ligado a algo bastante místico.
No século I d.C., a área ganhou notoriedade quando o Imperador Calígula construiu um grande circo para corridas de bigas. Foi neste mesmo circo, mais tarde expandido por Nero, que se deu o evento fundador da história do Vaticano.
Após o Grande Incêndio de Roma em 64 d.C., Nero culpou os cristãos e iniciou uma perseguição brutal.
Entre as suas vítimas estava um pescador da Galileia chamado Simão, a quem Jesus havia renomeado Pedro, a “rocha” sobre a qual construiria a sua Igreja. Segundo a tradição, São Pedro foi martirizado no Circo de Nero, crucificado de cabeça para baixo a seu próprio pedido, por não se considerar digno de morrer da mesma forma que Cristo.
O seu corpo foi sepultado numa necrópole próxima, num simples túmulo na encosta da Colina do Vaticano. Este local de sepultamento, venerado pelos primeiros cristãos, mais tarde tornou-se o ponto fulcral de tudo o que se seguiria.
A transformação da Colina do Vaticano começou no século IV. Com o Édito de Milão em 313, o Imperador Constantino legalizou o Cristianismo no Império Romano.
Convertido à nova fé, Constantino ordenou a construção de uma magnífica basílica sobre o suposto túmulo de São Pedro. A construção da Antiga Basílica de São Pedro, iniciada por volta de 324, marcou a consagração oficial do local como o centro espiritual do Cristianismo ocidental.
Com a queda do Império Romano do Ocidente no século V, Roma mergulhou num período de instabilidade. A Igreja, liderada pelo Bispo de Roma (o Papa), emergiu como a única instituição estável, preenchendo o vácuo de poder.
Em 756 com a “Doação de Pepino”, quando o rei dos Francos (Pepino, o Breve), foi concedido ao Papa Estêvão II o domínio sobre uma vasta faixa de terra na península Itálica. Nasceram assim os Estados Papais, um reino governado diretamente pelo Papa que duraria mais de mil anos, tornando o pontífice um monarca soberano com exércitos, leis e territórios.
No século XVI, a antiga basílica de Constantino foi demolida para dar lugar à monumental Basílica de São Pedro que conhecemos hoje, uma obra-prima da Renascença que envolveu arquitetos como Bramante, Rafael e Michelangelo.
O poder papal passou por um grande desafio no começo do século XIX quando da unificação da Itália porque ao declarar Roma sua capital, o Vaticano perdeu vários territórios.
A coisa ficou tão complicada que os papas da época meio que viraram prisioneiros dentro do próprio Vaticano como forma de protesto.
Em 1929, o Vaticano aceitou fazer um acordo com o então primeiro-ministro da Itália, que era aquele tal de Benito Mussolini (um sujeitinho deplorável!).
Isso resultou no Tratado de Latrão que previa que a Itália reconheceria a soberania do Papa sobre o Vaticano e pagaria um valor em dinheiro pelos territórios perdidos durante a unificação.
Assim, oficialmente nasceu o Vaticano.
Além disso, o tratado estabelecia que o Vaticano não se envolveria em disputas entre outros países, e que, caso essas disputas acontecessem, o seu território se manteria sempre neutro e inviolável.
Como resultado, poucos anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, Roma foi invadida pelos nazistas, mas o Vaticano não.
Você sabia que o Vaticano é o único país do mundo que tem latim como uma de seus idiomas oficiais (juntamente com o italiano)? Aliás é o único lugar do mundo onde você vai encontrar caixas eletrônicos (ATMs) com instruções neste idioma latim.
O Vaticano não tem linhas de metrô, até mesmo porque seria uma enorme incongruência dado seu diminuto tamanho. Mas mesmo assim ele tem a ferrovia mais curta do mundo, com apenas 300m de trilhos. Ela se conecta-se à rede italiana e é usada principalmente para o transporte de mercadorias, e ocasionalmente, o Papa usa-a para viagens simbólicas.
Sabe-se lá quantas vezes citei aqui no site monumentos que são Patrimônio da Humanidade segundo a UNESCO. Aqui no caso do Vaticano, estamos diante do único caso onde o país inteiro foi declarado como tal. Isso significa que tudo dentro das suas muralhas, desde a Basílica de São Pedro até aos jardins e edifícios administrativos, é considerado de valor universal para a humanidade.
Ninguém nasce cidadão do Vaticano. A cidadania não é concedida por direito de sangue ou de solo, mas sim por função. É atribuída a cardeais que vivem no Vaticano ou em Roma, a diplomatas da Santa Sé e a outros funcionários. Quando a função termina, a cidadania é revogada. Isso faz do Vaticano um país sem uma população nativa no sentido tradicional.
E disso decorre outra curiosidade: o Vaticano não possui hospitais. Devido ao seu tamanho e à regra de que ninguém nasce cidadão do Vaticano, não há maternidades. Em caso de emergência médica, os cidadãos e funcionários contam com o sistema de saúde italiano.
O Vaticano tem uma das farmácias mais baratas da Europa. Fundada em 1874, este estabelecimento único no país é uma das mais movimentadas do mundo. Por não aplicar os impostos italianos, muitos italianos, com a devida prescrição médica, “cruzam a fronteira” para comprar medicamentos a preços mais baixos.
O Vaticano tem a maior taxa de criminalidade e de consumo de vinho do mundo. Calma! Antes que você se assuste tem alguns “poréns” nestas estatísticas.
Com uma população residente de menos de 1000 pessoas e milhões de turistas por ano, crimes menores (principalmente furtos de carteira na Praça de São Pedro) fazem a estatística disparar. Ufa! Na prática, a segurança é altíssima e os crimes graves são praticamente inexistentes.
E esta mesma diminuta população, entre uma missa e outra, e refeições, é responsável pelo maior consumo de vinho per capita do mundo, com uma média de cerca de 74 litros por pessoa por ano. Isso é aproximadamente o dobro do consumo em países como a França ou a Itália.
O Vaticano tem a guarda mais pomposa, porém uma das mais bem treinadas do mundo, a Guarda Suíça.
Não de deixe enganar pelo uniforme espalhafatoso (que aliás não foi desenhado por Michelangelo!), os caras são faca na caveira. Ou seria na cruz?
A sua lealdade ao Papa é lendária e remonta a 1527, durante o Saque de Roma, quando 147 dos 189 guardas morreram a proteger o Papa Clemente VII, permitindo-lhe escapar para um local seguro.
O design atual do uniforme foi introduzido no início do século XX pelo comandante Jules Repond, inspirado em representações da época renascentista.
Os requisitos para se juntar a este exército de elite são rígidos: é preciso ser homem, suíço, católico, solteiro, ter pelo menos 1,74m de altura e entre 19 e 30 anos e ter completado o serviço militar suíço.
Se você já viu turistas tomando broncas por se aproximar daqueles típicos guardas na Inglaterra, saiba que aqui existe uma regra: um guarda suíço em pé com sua alabarda (tipo uma lança) está em Serviço de Honra e não deve ser abordado. Se ele estiver de mãos livres, você pode fazer perguntas e pedir fotos.
Mas talvez a maior curiosidade sobre o Vaticano sejam os tais arquivos secretos do Vaticano.
Uns dizem que eles não seriam assim tão secretos porque estão abertos a estudiosos qualificados, e que o secreto seria apenas uma derivação do latim “secretum” que significa “privado” ou “pessoal”.
Sei não, eu sou daqueles que ainda acredita que tem umas coisas bem interessantes escondidas ali. E você?
Uma viagem à Roma invariavelmente sempre inclui um passeio pelo Vaticano.
Então, exceto se você tiver algum interesse muito específico, te diria que o razoável é você separar ao menos um dia do seu roteiro de viagem para conhecer o Vaticano com calma.
Digo isso por dois motivos, primeiro as filas. Sim, mesmo reservando tudo antes (aqui me refiro à Capela Sistina e Museus do Vaticano), espere gastar ao menos 1 hora do seu dia em filas durante a sua visita ao Vaticano.
O lado bom é que por mais que elas pareçam quilométricas, tendem a fluir com facilidade.
Segundo porque, mesmo sendo um local pequeno, há muito para se ver e principalmente com calma.
O que eu notei é que na parte da manhã a Basilica fica mais lotada do que na parte da tarde, pelo menos do verão. Tanto que depois de sairmos do museu resolvemos voltar para visitar ela novamente e notei que estava muito, mas muito mais tranquila.
Se puder, faça isso, vá nela em dois momentos.
Antes de falar das atrações em si, preciso te avisar que para entrar na Basílica de São Pedro e nos Museus do Vaticano é preciso cumprir um código de vestimentas.
Nada de camisetas com ombros de fora, tops, saias e bermudas curtas (acima do joelho).
Evite ser barrado!
Outro ponto importante é que não existe nenhuma estação de metrô que fique exatamente no Vaticano. Acho que até por conta da questão de escavar num lugar destes… Imagina o tanto de coisa que tem ali???
Então se você pretender ir para lá usando transporte público, sugiro utilizar a estação Cipro que fica uns 500m do Museu do Vaticano.
Para o seu dia de passeio pelo Vaticano, sugiro que você alterne entre atrações internas e externas, tipo Museu do Vaticano à Praça São Pedro à Basílica de São Pedro.
Isso para não ficar com aquela impressão de ter passado o dia inteiro em (embora interessantíssimos) corredores de museus. Tem gente que não curte esta sensação de horas a fio num museu e prefere intercalar.
Invariavelmente as visitas ao Vaticano, especialmente para quem agenda os primeiros horários do dia começa pelo Museu do Vaticano e a Capela Sistina.
Primeira e essencial dica para visitar o Museu do Vaticano e a Capela Sistina: reserve o quanto antes! Sério, ir para lá sem reserva é um dos maiores perrengues de viagem que você pode ter. Você simplesmente não vai conseguir visitar!
As reservas devem ser feitas no site oficial do Museu do Vaticano e com hora marcada justamente para minimizar as filas. Fuja dos atravessadores e sites que tentam se passar por “oficiais” – não tem outra opção, é fria!
Aliás neste mesmo site você confere o preço e horário de funcionamento atualizado.
Quanto tempo antes? Eu reservei 3 meses antes, só para você ter uma ideia e mesmo assim alguns horários já estavam tomados.
Os ingressos são com dia e horário marcados, e nominais (portanto tenha seu passaporte em mãos).
O ingresso é o mesmo, tanto para a capela quanto museu e a visitação é feita num fluxo natural como você verá na sequência.
Alimentos e líquidos não são permitidos dentro do museu, mas podem ser deixados, junto com mochilas e casacos no guarda-volumes gratuito existente na entrada. Mas água pode.
Fotos: são permitidas sem flash em todas as áreas, exceto na Capela Sistina onde existe uma repreensão firme dos guardas a quem tentar violar a regra.
Dito isso há outra coisa a saber. Embora a gente fale Museu do Vaticano, estamos falando de um complexo que vai muito além de um museu apenas.
São vários edifícios conectados e com dois andares repletos de coisas interessantes para ver. Mais ou menos como o Louvre de Paris.
Tem uma pinacoteca, galerias e é claro, a joia do papado… a Capela Sistina.
E por falar nisso, uma coisa que sugiro você não fazer é passar direto por tudo e ir direto para a Capela Sistina, como se isso fosse a única coisa interessante para ver ali. Este é um erro que muita gente comete e acaba perdendo a oportunidade de ver coisas incríveis.
Claro que para alguns o tempo é curto, mas se puder, invista algumas horas explorando o museu com calma. Você vai ver coisas que nunca viu antes.
Para ajudar, compartilho aqui o mapa oficial do Vaticano:
Logo que você sobe as escadas para iniciar uma das rotas pelo Museu do Vaticano, lembrando que você percorre meio que fluxos lá dentro, detenha-se um momento antes de entrar em uma das salas e vá para o terraço ao lado da entrada da Pinacoteca e admire os jardins e a bela vista da cúpula da Basílica de São Pedro:
Na linha de coisas diferentes, uma área que chama a atenção de muita gente é a conhecida como Museu Gregoriano Egípcio, e não é para menos, já que ali existem coisas que só seriam vistas em outros grandes museus como no Louve, British Museum ou no Egito mesmo.
Não deixe de ver de perto os corpos e os famosos “sarcófagos amarelos” que são da XXI Dinastia (c. 1000 a.C.) e do Período Tardio, com destaque para a múmia de Amaneris.
Uma área interessantíssima, mas negligenciada por muitos é a Vatican Art Gallery (Pinacoteca), onde você encontra pinturas incríveis dos séculos XI a XIX.
São itens nada convencionais como Deposizione de Caravaggio e o inacabado, porém evocativo, San Gerolamo de Leonardo da Vinci, e ainda La Trasfigurazione de Rafael, que segundo alguns teria inspirado Michelangelo a criar a Capela Sistina.
Uma outra área bastante interessante é o Museu Pio Clemente que é dedicado à escultura grega e romana antiga.
Difícil é ficar indiferente diante das esculturas hiper realistas e não se impressionar com a construção em si que é recoberta de mármore por todos os lados. Ali você encontra itens fantásticos, como a Sala Rotonda cujo teto lembra o Panteão de Roma.
Os mosaicos do chão também impressionam:
Aproveite para espiar duas outras áreas próximas que falem a pena.
A primeira é a Galleria dei Candelabri, uma galeria ricamente decorada com mármore e pinturas no teto que mais parecem estarem vivas.
A outra é a Sala degli Animali, que tem uma enorme coleção de esculturas de animais em mármore riquíssimas em detalhes:
Por mais que caminhar pelos corredores do Museu do Vaticano seja interessantíssimo, chega uma hora que você cansa de espaços fechados, especialmente se estiver cheio.Pausa para admirar um pátio interno e super bonito, o Cortile Ottagono com suas esculturas.
Ali perto, outro pátio, o Cortile della Pigna é super interessante porque conta da Esfera Dentro da Esfera de Arnaldo Pomodoro, uma escultura contemporânea de bronze que Pomodoro replicou em todo o mundo, incluindo no Trinity College em Dublin e na Sede da ONU em Nova York.
Seguindo o fluxo, você chega a um conjunto de quatro salas conhecidas como Raphael Rooms, ou Vatican Rooms, que vai te deixar sem palavras.
Talvez pelo nome você já tenha reconhecido o gênio do Renascentista. Ele começou a trabalhar nestas quatro salas em 1508 e seguiu até a sua morte em 1520, pintando afrescos encomendados pelo Papa Júlio II.
A primeira delas, a Stanza della Segnatura (Sala da Assinatura) talvez seja a mais famosa, justamente por conter a uma de suas obras primas mais famosas, a A Escola de Atenas, representando a filosofia.
Nela estão representados quatro pilares do conhecimento naquela época: teologia, filosofia, justiça e poesia; e três valores verdade, bondade e beleza.
Além disso você passa também pela Stanza di Eliodoro (Sala de Heliodoro) que retrata a a Igreja e eventos históricos; a Stanza dell’Incendio del Borgo (Sala do Incêndio do Borgo) ilustrando eventos de papas anteriores chamados Leão, e por fim a Sala di Constantino (Sala de Constantino), a maior delas, dedicada à vitória do cristianismo sobre o Império Romano.
Eu sou fanático por mapas, e por isso mesmo um lugar que gosto muito no Vaticano é a Galeria dos Mapas.
É um corredor de 120m por 6m de largura cujas paredes estão ornamentadas com mapas super antigos da Itália e no teto existem pinturas retratando acontecimentos histórico e religiosos daqueles lugares.
Uma das partes mais bonitas do Vaticano, esta galeria liga o museu à Capela Sistina. Nas suas paredes, mapas de regiões da Itália e no teto pinturas sobre expedições marítimas.
E finalmente no local mais famoso do Museu do Vaticano, onde inclusive são escolhidos os papas no famoso Conclave, a Capela Sistina.
Aqui um lembrete, por mais que ela esteja lotada e todos animados com o que os olhos amaram, vale lembrar que a Capela Sistina é uma capela… não é uma balada.
Então respeito e silêncio são mais do que bem vindo. Aproveite que afrescos de Michelangelo te deixarão sem palavras e com torcicolo.
O nome Sistina vem do Papa que a mandou construir, o Papa Sisto IV, entre 1477 e 1480. A palavra “Sistina” é a forma adjetiva de “Sisto”.
A decoração da capela não foi feita de uma só vez. Podemos dividi-la em três grandes fases:
Antes mesmo de Michelangelo sonhar em pintar o teto, o Papa Sisto IV convocou um “time dos sonhos” de pintores renascentistas para decorar as paredes laterais. Nomes como Sandro Botticelli, Pietro Perugino e Domenico Ghirlandaio (que mais tarde seria o mestre de Michelangelo) pintaram painéis que contam duas histórias em paralelo.
Na parede sul estão cenas da vida de Moisés, com o Antigo Testamento.
Já na parede norte estão cenas da vida de Cristo, representando o Novo Testamento.
A ideia era criar uma ponte simbólica entre a antiga e a nova aliança de Deus com a humanidade.
O teto é certamente a parte mais famosa. O Papa Júlio II, sobrinho de Sisto IV, decidiu que o teto original (um simples céu azul com estrelas douradas) não era grandioso o suficiente. Ele então convocou Michelangelo Buonarroti para a tarefa.
Michelangelo, que se considerava um escultor e não um pintor, relutou muito em aceitar. No entanto, sob pressão do Papa, ele não só aceitou como criou uma obra que mudaria a história da arte.
O tema central do teto é o Livro do Gênesis, dividido em nove painéis principais, incluindo:
Quase 25 anos depois de terminar o teto, um Michelangelo mais velho e mais sombrio foi chamado novamente, desta vez pelo Papa Clemente VII (a obra foi concluída sob o Papa Paulo III), para pintar a parede do altar.
O Juízo Final é uma representação avassaladora e dramática do Apocalipse. No centro, um Cristo poderoso e sem barba julga a humanidade. Os salvos ascendem ao céu à sua direita, enquanto os condenados são arrastados para o inferno por demônios à sua esquerda. A obra reflete o clima de incerteza da época, marcado pelo Saque de Roma e pela Reforma Protestante.
Curiosidades Sobre a Capela Sistina
Michelangelo não pintou deitado: Ao contrário da crença popular (imortalizada no filme “Agonia e Êxtase”), ele não pintou o teto deitado de costas. Ele projetou andaimes especiais que o permitiam ficar em pé, com o pescoço inclinado para trás, uma posição extremamente desconfortável que lhe causou dores crônicas. Ele mesmo escreveu um poema lamentando sua postura “de arco”.
O autorretrato macabro: No Juízo Final, São Bartolomeu é mostrado segurando sua própria pele esfolada (ele foi martirizado dessa forma). A face na pele esfolada é amplamente reconhecida como um autorretrato angustiado de Michelangelo.
A vingança do artista: Durante a pintura do Juízo Final, o mestre de cerimônias do Papa, Biagio da Cesena, criticou duramente a obra, dizendo que os nus eram vergonhosos e mais adequados a um bordel do que a uma capela. Como vingança, Michelangelo o pintou no canto inferior direito do afresco como Minos, o juiz do inferno, com orelhas de burro e uma serpente mordendo seus genitais. Quando Cesena reclamou ao Papa, o pontífice teria respondido: “Se ele o tivesse colocado no purgatório, eu poderia tirá-lo, mas no inferno não tenho jurisdição.”
A “Campanha da Folha de Figueira”: A nudez no Juízo Final causou um escândalo tão grande que, após a morte de Michelangelo, o Concílio de Trento ordenou que as figuras fossem “vestidas”. O artista Daniele da Volterra foi contratado para pintar panos e tangas sobre as genitálias, ganhando o apelido de “Il Braghettone” (O Cuequeiro).
O azul caríssimo: O pigmento azul ultramarino, feito da pedra semipreciosa lápis-lazúli, era o mais caro de todos. Michelangelo o usou com moderação no teto, mas no Juízo Final (financiado por um Papa mais rico), o azul do céu é vasto e dominante, uma demonstração de poder e opulência.
Dimensões bíblicas: As dimensões da capela (40,9 metros de comprimento, 13,4 metros de largura e 20,7 metros de altura) são, segundo estudiosos, as mesmas dimensões do Templo de Salomão, conforme descrito no Antigo Testamento.
A Fumaça do Conclave: Quando os cardeais estão reunidos para eleger um novo Papa, o mundo inteiro observa a chaminé da capela. Se a votação for inconclusiva, as cédulas são queimadas com palha úmida, produzindo fumaça preta (fumata nera). Quando um Papa é eleito, as cédulas são queimadas com palha seca, produzindo fumaça branca (fumata bianca).
Pode tirar foto? Não recomendo ostensivamente porque você será duramente repreendido pelos guardas que são muito atentos e podem pedir para você apagar. É bem verdade que ninguém resiste àquela selfie do nariz de baixo para cima focando o teto…
O interessante é de onde vem tal proibição. Vou dar uma resumida.
Por mais que alguns acreditem que ela deriva de motivos religiosos ou preservação dos afrescos, o motivo é (na verdade era) comercial.
Quando precisaram fazer o restauro dos afrescos, o Vaticano fechou um contrato com uma emissora de TV japonesa, a Nippon Television Network Corporation.
Eles davam a grana para os reparos e ganhavam exclusividade nas imagens para documentários, livros, postais e qualquer outra coisa.
Dai surgiu a proibição de fotos: era um tema de “direitos autoriais”.
É bem verdade que isso expirou em 1997, mas ai vieram as fotos digitais, celulares e para evitar que as pessoas fiquem no frenesi, o Vaticano meio que manteve a proibição.
Aliás as fotos que ilustram este post vieram de um print screen justamente de um serviço oficial de visita virtual do Vaticano.
E por falar em fotos, o Vaticano é cheio de lugares lindos para você admirar e fotografar e um dos meus favoritos é a Scala Elicoidale Momo ou Escadaria de Bramante.
Uma obra de grande genialidade que desafia a ótica. Ela é composta por duas espirais entrelaçadas, de forma a permitir a subida e descida de pessoas e animais de carga sem interrupção.
Atenção por que existem duas. Uma é a escadaria original de Bramante, que fica no Museu Pio-Clementino e data de 1505. Ela foi construída para que o Papa Júlio II pudesse entrar em sua residência privada diretamente em sua carruagem – normalmente não está aberta ao público.
A outra, bem mais moderna e famosa, está para o Museu do Vaticano assim como a Pirâmide Invertida está para o Louvre.
Projetada por Giuseppe Momo em 1932, dai seu nome, ela também tem estra estutura de hélice dupla, mas como fica mais fechada conforme se desce, de cima, dá uma impressão de vórtice incrível.
Localizada no final da visita ao museu, todos os visitantes saem por este caminho, garantindo um tráfego ininterrupto em cada sentido, assim como no design original de Bramante.
Hora de sair do museu e respirar um pouco de ar, ainda que no quente verão italiano.
Aproveite para contemplar a Praça de São Pedro, a praça que fica diante da basílica de mesmo nome.
Aliás aqui trago uma percepção e lembrança minha.
Muita gente tem na memória a imagem desta praça cheia de gente durante o anúncio dos papas. Eu pessoalmente tenho como imagem mais icônica, justamente o oposto, ela vazia numa noite de chuva onde o Papa Francisco caminhava rezando pelas vítimas da Covid-19 – emocionante.
Enfim, é um lugar grandioso ao ponto de fazer jus à algumas figuras como ele. Que aliás na sua humildade pediu para ser enterrado fora do Vaticano na Basílica Papal de Santa Maria Maggiore.
A Praça de São Pedro, projetada por Bernini, é uma obra de gênio.
Cada elemento na praça foi meticulosamente planejado e tem um significado.
As Colunatas são dois conjuntos dispostos em semicírculo compostos por 284 colunas dóricas, dispostas em quatro fileiras de profundidade.
A grandiosidade é intencional, para evocar reverência e admiração. No topo das colunatas, há 140 estátuas de santos e mártires, cada uma com cerca de 3,2 metros de altura, como se estivessem intercedendo pelos fiéis reunidos abaixo.
Exatamente no centro da elipse está um obelisco egípcio de granito vermelho, com 25,5 metros de altura (mais de 40 metros com a base e a cruz) conhecido como Obelisco do Vaticano.
Este não é uma imitação; é um obelisco autêntico do Egito, trazido a Roma pelo Imperador Calígula em 37 d.C. para decorar o seu circo particular. A tradição diz que foi nesse circo que São Pedro foi martirizado, tornando o obelisco uma “testemunha silenciosa” do evento.
Mover o obelisco de 327 toneladas para o centro da praça em 1586 foi uma operação de engenharia monumental, liderada pelo arquiteto Domenico Fontana. O Papa Sisto V ordenou silêncio absoluto da multidão sob pena de morte, para que os engenheiros pudessem ouvir qualquer sinal de problema.
No momento crítico, as cordas de cânhamo que sustentavam o obelisco começaram a superaquecer e a ceder. Um marinheiro chamado Benedetto Bresca, desobedecendo a ordem, gritou “Acqua alle funi!” (“Água nas cordas!”). Sua sugestão salvou a operação. Em vez de ser executado, ele e seus descendentes receberam o privilégio perpétuo de fornecer as folhas de palmeira para as celebrações do Domingo de Ramos no Vaticano.
O obelisco no centro da praça funciona como o ponteiro de um gigantesco relógio de sol. Sua sombra se move pelo chão de granito, marcando o meio-dia e os solstícios com discos de mármore incrustados no pavimento
Para criar uma simetria perfeita na praça, Bernini projetou uma fonte idêntica à que já existia (criada por Carlo Maderno).
Aliás, Bernini era um mestre da ilusão. Entre o obelisco e cada fonte, há um disco de mármore no chão. Se você ficar sobre um desses discos e olhar para a colunata mais próxima, as quatro fileiras de colunas maciças se alinham perfeitamente, parecendo ser apenas uma única fileira. É um truque de perspectiva espetacular.
Embora não seja visível da praça, uma muralha à direita (olhando para a Basílica) esconde a Passetto di Borgo, uma passagem elevada e fortificada que liga o Palácio Apostólico ao Castelo de Santo Ângelo. Era uma rota de fuga para os Papas em tempos de perigo. O Papa Clemente VII a usou para escapar durante o Saque de Roma em 1527.
Basílica de São Pedro
Eu já vi muita igreja e templo religioso mundo afora, mas acho que nenhum em termos de grandeza e embasbacamento se compara à Basílica de São Pedro.
Seja você religioso ou não, é o tipo de lugar que você não esquece nunca de ter visto.
Aproveitando o mote, segure duas tentações. Primeiro a de entrar correndo.
Caminhe lentamente admirando-a desde longe e perceba o quanto ela fica grandiosa quando você se aproxima. É algo que contagia, novamente, independentemente de qualquer aspecto religioso.
A segunda tentação a ser contida é a de sair fotografando tudo. Sugiro captar tudo com os olhos, contemplar, e eventualmente até refletir sobre o que é tudo aquilo. Depois você volta fotografando. Garanto que será uma experiência muito mais bacana.
Pare diante da porta principal e tome um fôlego, você vai precisar diante de tanto qual que virá pela frente.
Isso já começa logo perto da entrada.
Na linha de coisas que você não vê todo dia, assim que entrar na Basílica de São Pedro, à sua direita, maravilhe-se com uma das mais famosas esculturas do mundo: a Pietá.
Esculpida quando Michelangelo tinha apenas 24 anos, é a única escultura que assinou.
Uma das coisas que mais impressiona nesta escultura, além do seu realismo, é um certo brilho que existe nela. Difícil de explicar, só vendo mesmo.
A Basílica de São Pedro é o maior e mais importante edifício religioso do catolicismo e um dos locais cristãos mais sagrados do mundo. Não é a catedral oficial do Papa (esse título pertence à Arquibasílica de São João de Latrão, em Roma), mas é a sua igreja principal, onde ele celebra a maioria das liturgias.
Para alguns é a maior igreja do mundo. Seu interior é tão vasto (2,3 hectares) que poderia abrigar a Catedral de Notre Dame inteira. No chão da nave central, há marcas que mostram onde outras grandes catedrais do mundo terminariam se fossem colocadas dentro dela.
Sua importância vem do fato de que segundo a crença católica, a Basílica foi construída sobre o local de sepultamento de São Pedro, o primeiro apóstolo, considerado o primeiro Papa pela Igreja Católica.
Aliás a Basílica de São Pedro é cheia de simbolismos.
Um dos mais famosos é a Porta Santa que permanece totalmente selada e só é aberta durante o Ano Santo (Jubileu), o que ocorre tradicionalmente a cada 25 anos.
Segundo a tradição, ela representa a passagem para a salvação e o perdão, inspirada na frase de Jesus Cristo: “Eu sou a porta”.
Acredita-se que passando por ela, as pessoas se redimem de seus pecados.
A história da Basílica é uma saga de quase 1.700 anos.
Após a legalização do cristianismo, o Imperador Constantino ordenou a construção da primeira basílica por volta do ano 324 d.C. Ela foi erguida sobre um antigo cemitério romano onde a tradição afirmava estar o túmulo de Pedro. Essa igreja durou mais de 1.000 anos, mas no século XV estava em péssimas condições.
Em 1506, o Papa Júlio II (o mesmo que encomendou o teto da Capela Sistina) tomou a ousada decisão de demolir a antiga basílica e construir uma nova, mais grandiosa. O projeto foi tão monumental que levou 120 anos para ser concluído e envolveu os maiores arquitetos e artistas de sua época.
Donato Bramante foi o arquiteto original, que projetou uma igreja em formato de cruz grega (com todos os braços iguais). Um dos nomes mais famosos a trabalhar ali foi Michelangelo, que assumiu o projeto aos 71 anos, sendo o seu maior legal o projeto da magnífica cúpula.
Outro importante nome ali foi Gian Lorenzo Bernini. É tido como o grande “decorador” da Basílica. Ele projetou a Praça de São Pedro e muitas das obras mais icônicas do interior, trabalhando por quase 50 anos na Basílica.
Andando pela Basílica, é impossível ficar indiferente diante do Baldaquino construído por Bernini em 1633.
No centro da Basílica, sob a cúpula, está este dossel (ou baldaquino) de bronze maciço com quase 30 metros de altura. Ele marca o altar principal e fica diretamente sobre o túmulo de São Pedro.
Suas colunas em espiral foram inspiradas nas colunas do antigo Templo de Salomão.
Acima disso tudo está a Cúpula, que como dito foi projetada e construída por Michelangelo.
Conhecida como o “Domo” é o símbolo do Vaticano pode ser vista de vários lugares de Roma. Com 136 metros de altura, é a cúpula mais alta do mundo.
Seu interior é decorado com mosaicos impressionantes. É possível subir até o topo para ter uma vista deslumbrante de Roma e da Praça de São Pedro.
No fundo da Basílica, está a Cátedra de São Pedro construída em 1666 por Bernini.
É um relicário de bronze dourado que envolve uma cadeira de madeira, que a tradição diz ter sido usada pelo próprio São Pedro.
A cadeira parece flutuar, sustentada por estátuas dos quatro grandes Doutores da Igreja (dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio; e dois do Oriente, Santo Atanásio e São João Crisóstomo).
Não deixe de conferir também a Estátua de São Pedro, uma estátua de bronze de São Pedro sentado em um trono. Ao longo dos séculos, milhões de peregrinos tocaram e beijaram seu pé direito como sinal de devoção, desgastando-o visivelmente.
A entrada em São Pedro é gratuita, mas as filas são muito longas, então se você conseguir chegar para a abertura às 7h, pode ser que espere menos tempo.
Mas e ver o Papa? Dizem que salvo feriados ou compromissos extraordinários, o Papa aparece na janela de sua residência todos os domingos ao meio-dia.
É a janela do último andar do Palácio Apostólico (o edifício à direita da Basílica).
Tente a sorte juntando-se à multidão!
E aí? Que tal programar agora a sua viagem para o Vaticano?
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